sábado, 19 de agosto de 2017

Livros sci-fi dos anos 1920 e 60 voltam às lojas com o lado cabeça do gênero


THALES DE MENEZES
DE SÃO PAULO

Há um filão na literatura de ficção científica que não apresenta alienígenas devoradores de tripulações inteiras de humanos, raios laser mortais, naves bizarras ou guerras estelares. Nada de Flash Gordon ou Han Solo. São livros nos quais reações íntimas dos personagens são mais importantes do que seu poder de destruição.

Na falta de adjetivo melhor, há o rótulo ficção científica "humanista". Outra denominação recorrente é "filosófica". São livros às vezes nada aventureiros que discutem o papel do homem no universo.

Por iniciativa da editora Aleph, três dessas obras estão nas livrarias. Para o fã de sci-fi "cabeça", é um momento especial, já que esses livros eram há pouco tempo caçados em sebos e em versões no original, em inglês ou, no máximo, editadas em Portugal.

"Solaris", do polonês Stanislaw Lem (1921-2006), "Um Estranho numa Terra Estranha", do americano Robert A. Heinlein (1907-1988), e "Nós", do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), trazem enredos bem diferentes, mas em todos as mudanças psicológicas de seus personagens são mais relevantes do que o desenrolar da ação.

"Solaris", lançado em 1961, é o mais conhecido do público que vai além dos fanáticos por sci-fi. Provavelmente por duas adaptações para o cinema.

O "Solaris" de 1972 foi produzido na então União Soviética, dirigido pelo russo Andrei Tarkóvski, e teve aclamação da crítica. A refilmagem de 2012, bem pior, é americana, com Steve Soderbergh na direção e o astro George Clooney encabeçando o elenco.

PLANETA LÍQUIDO

Não é fácil fazer um filme a partir de "Solaris". O livro mostra humanos numa estação espacial próxima ao planeta que dá nome ao livro, que parece totalmente tomado por um oceano. Na verdade, essa superfície líquida é uma entidade única, um ser com poderes capazes de afetar a mente humana.

Enquanto os astronautas pensam estar analisando Solaris, o planeta vivo está analisando os visitantes, que enfrentam alterações em suas memórias. O psicólogo Kris Kelvin começa a rever sua mulher, que se suicidou na Terra. Os planos de percepção são corrompidos, e nada é mais o que parece ser.

Se "Solaris" apresenta questões filosóficas, "O Estranho numa Terra Estranha", também de 1961, é mais uma extensa discussão comportamental.

Uma expedição tripulada pousa em Marte 25 anos depois de uma primeira nave ter fracassado na missão de chegar ao planeta e seus tripulantes terem sido considerados mortos.

Além de marcianos nada ameaçadores, é encontrado ali um humano de 25 anos, filho de um casal de astronautas da missão anterior. Trazido ao planeta dos pais, ele foge dos cientistas e da polícia.

Numa trama intrincada, encontra uma Terra controlada por grupos religiosos. Depois de várias experiências, irá criar sua própria seita, na qual prega o amor livre e as drogas.

LIVRO HIPPIE

Questionando tabus sociais e sexuais, "Um Estranho numa Terra Estranha" foi livro de cabeceira dos hippies, na companhia de livros como "A Erva do Diabo", do peruano Carlos Castañeda, e "O Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas", do americano Robert M. Pirsig.

Já "Nós" foi concluído em 1921. Lançado pela primeira vez três anos depois em Nova York, traduzido para o inglês, é o pai dos romances distópicos. Com ecos das transformações provocadas pela Revolução Russa em 1917, a ação se passa numa Terra que vive em harmonia, habitada por cidadãos obedientes ao regime vigente.

O russo Ievguêni Zamiátin, autor de 'Nós' (1921), que influenciou 'Admirável Mundo Novo', de Huxley
O herói, como todos os personagens, tem um código como nome. D-503 tem sua vida perturbada quando se relaciona com I-330, uma garota com ambições subversivas.

"Nós" é uma influência inegável para "Admirável Mundo Novo" (1932), do autor inglês Aldous Huxley, um best-seller até hoje. Assim, por tabela, o romance de Zamiátin fez a cabeça de gerações.

Para os mais jovens que relutam diante dessa literatura, fica a dica: "Solaris" e "Um Estranho numa Terra Estranha" eram adorados por Gene Roddenberry, o pai de "Star Trek".

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SOLARIS
AUTOR Stanislaw Lem
TRADUÇÃO Eneida Favre
EDITORA Aleph
QUANTO R$ 59,90 (320 págs.)

UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA
AUTOR Robert A. Heinlein
TRADUÇÃO Edmo Suassuna
EDITORA Aleph
QUANTO R$ 69,90 (576 págs.)

NÓS
AUTOR Ievguêni Zamiátin
TRADUÇÃO Gabriela Soares
EDITORA Aleph
QUANTO R$ 59,90 (344 págs.)

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OUTRA OBRAS DA SCI-FI CABEÇA

'ADMIRÁVEL MUNDO NOVO' (1932)
Aldous Huxley escreveu este relato de futuro distópico que se tornou um dos dez livros mais vendidos na Inglaterra no século 20. Está em catálogo pela editora Biblioteca Azul (R$ 39,90)

'MEMÓRIAS ENCONTRADAS NUMA BANHEIRA' (1961)
Do autor de 'Solaris', traz o diário de um agente do futuro que passa anos num quartel subterrâneo. Fora de catálogo, a edição da Francisco Alves pode ser encontrada em sebos

'2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO' (1968)
Muitos pensam que o filme de Stanley Kubrick adaptou o livro de Arthur C. Clarke; mas ele saiu depois que ambos desenvolveram juntos a história para o cinema. Está em catálogo, pela editora Aleph (R$ 56)

'THIS PERFECT DAY' (1970)
Ira Levin, de 'O Bebê de Rosemary', criou um dos romances mais eletrizantes sobre futuro distópico. Há uma boa edição brasileira da Nova Fronteira, 'Este Mundo Perfeito' dos anos 1970, hoje raríssima