sábado, 10 de maio de 2014

Poucas palavras


Há exatos seis meses, fiquei a sós com meu pai como há muito não fazíamos.

A "conversa" foi muda, como na maioria das vezes em que estávamos juntos. A maior parte de nossos encontros na vida foram dessa maneira, quase que sem palavras.

Aprendi na maior parte do tempo, observando. Foi assim no cotidiano, na manutenção da casa, dos carros, para aprender a dirigir e mesmo na decisão de seguir uma profissão.

Fiquei mais de uma hora a sós com ele, observando aquele homem que me orientou falando pouco, meu pai.

Hoje, tomei coragem e voltei ao cemitério para uma visita.



Esquina do Veneno.



Oito horas da manhã de 05 de Maio na esquina entre Barão de Limeira e a General Osório - a esquina do Veneno.

Dois sujeitos sentados em uma mesa externa ao bar da esquina, e uma garrafa de vodka quase vazia.

A esquina continua sendo do Veneno, mas o veneno mudou...




Quer saber um pouco do que era a esquina do Veneno?

Leandro Alvares

Quando o assunto é compra de peças e acessórios de motos, um dos lugares que logo surge no pensamento do motociclista é o chamado “centro velho” da cidade de São Paulo. Até mesmo quem mora em outros Estados brasileiros conhece ou já ouviu falar no cruzamento da rua General Osório com a alameda Barão de Limeira, local onde se encontra praticamente tudo para as máquinas de duas rodas. Mas não são todos que sabem da história deste importante endereço, que guarda até hoje resquícios da era romântica do motociclismo nacional: a famosa Esquina do Veneno.

Ruas de paralelepípedo, sinos na porta das lojas para anunciar aos concorrentes que uma moto fora vendida, rixas épicas, amizades, competição, um ponto de encontro para os apaixonados por motos. Assim era a Esquina no início da década de 1930, quando começou a ser ocupada pelas motocicletas.

Felipe Carmona, Edgard Soares e Luiz Latorre foram três dos principais responsáveis pela criação do ambiente histórico. Foram os primeiros a chegar na região, que naquela época era considerada um dos pontos chiques da capital, próxima ao bairro dos Campos Elíseos, onde morava a maioria das tradicionais famílias da oligarquia paulista.

Em comum, o trio tinha o amor pelas motos. Tanto que vivia basicamente em função delas. O trabalho, o lazer, tudo tinha ligação com as máquinas. E não foi à toa que, além de grandes mecânicos e comerciantes, tornaram-se importantes nomes das competições, conquistando diversos títulos de motovelocidade.

O nascimento da Esquina do Veneno foi em 1932, quando os sócios Carmona e Paco Soares — pai de Edgard — montaram sua loja. Nela, comercializavam vários modelos de motos européias e norte-americanas, como BSA, NSU, Norton, Horex, Guzzi, Panther, Harley-Davidson e Indian. Claro que em escala bem reduzida, de acordo com as limitações da época.

Aos poucos, foram atraindo inúmeras pessoas, especialmente os jovens de elevado poder aquisitivo, que estavam “envenenados” pela então nascente paixão pelos veículos a motor. Moto, naquele tempo, era algo fora de série.

A cerca de 50 metros da loja de Carmona e Soares, instalou-se anos mais tarde o polêmico Luiz Latorre, um apaixonado pelas máquinas italianas. Laverda, Guzzi e Ducati eram as suas preferidas e as que ele importava para o país com um carinho especial.

Já no fim da década de 1950, mais precisamente no ano de 58, era Edgard Soares que, separando-se de Carmona, inaugurava o seu próprio estabelecimento, exatamente no cruzamento da General Osório com a Barão de Limeira. Foi também neste período que a rivalidade na área dos negócios e das competições se tornou mais apimentada. Uma disputa saudável que alimentava a energia do trio.

Nos dias de hoje, infelizmente nenhum dos três personagens estão mais entre nós para contar como foi a fase áurea da Esquina do Veneno. No entanto, deixaram a história viva e eternizada com seus filhos que permaneceram na região.

A Esquina contada pelos sucessores

Luiz Carlos, filho de Latorre, tornou-se o responsável pela continuidade do trabalho do pai. “Nossa loja, antigamente, era lotada de motocicletas. Entre motos expostas e embaladas, tínhamos umas cem unidades, de várias cilindradas e procedências. Não era só da Itália e da Alemanha. A gente tinha moto até da Rússia aqui. Modéstia à parte, o meu pai tinha um grande poder de fogo”, recordou-se.

“Antigamente nós tínhamos aqui uma coisa curiosa: eram apenas três lojas na rua General Osório. Agora, estamos diante de um fato muito curioso e ao mesmo tempo triste, porque a proliferação de lojas na própria General e em suas transversais já somam mais de 300 estabelecimentos. Isso sem contar os desmanches. As coisas mudaram bastante”, destacou Luiz Carlos.

Edgard Francisco, o Edgarzinho, e Gislene Soares são os filhos que comandam atualmente a loja do pai. “Muitos já quiseram comprar este lugar, mas jamais o venderemos. A loja sempre foi deste jeito e permanecerá da maneira como meu pai a construiu e deixou. Entendemos que fechar as portas seria como enterrar um lindo passado”, ressaltaram.

“Nosso pai era fascinado por motos. Não andava de carro, só de motocicleta. Estava sempre aqui na loja, viajava direto com os amigos e acelerava muito. Pilotar devagar era algo impraticável para ele e ninguém conseguia fazê-lo mudar de idéia quanto a isso”, lembraram entre risos.

Para os filhos, tanto os de Soares como o de Latorre, o charme da Esquina do Veneno só existiu graças ao que seus patriarcas fizeram. Um legado, portanto. “Pessoas de diversas regiões do país nos procuravam porque aqui era o único lugar onde havia moto para se comprar. Isso valia também para as peças”, lembrou Edgarzinho.

“O mais engraçado é que os três não se davam bem, embora no fundo fossem amigos. Brigavam, provocavam uns aos outros. O Carmona, por exemplo, tocava um sino para avisar que tinha vendido uma moto. Já o meu pai, soava uma sirene. E assim eles alimentavam essa disputa sadia”, acrescentou Soares.

Doemis dos Reis, dono da oficina de restaurações Guard Rail, também guarda boas lembranças dos colegas da Esquina do Veneno. Foi lá, com Edgard Soares, que ele aprendeu tudo o que sabe sobre motos.

“Aquele tempo era muito gostoso. O pessoal fazia corrida da Barão de Limeira até o Aeroporto de Congonhas; era uma farra absurda. Quando havia treino em Interlagos, o Edgard pedia para seus mecânicos soldarem a porta da loja do Carmona. Tudo para que o Felipe chegasse atrasado ao autódromo e não descobrisse nossos ajustes de moto”, revelou Doemis.

Novos tempos, centenas de novas lojas

Na década de 1970, chegaram ao Brasil as primeiras marcas japonesas de motocicletas, dando início ao processo de criação das redes de concessionárias em todo o país. “Foi inclusive o meu pai que trouxe a Yamaha para cá, sendo a primeira oficina da montadora em nosso território”, afirmou Edgarzinho.

Com o passar dos anos, no entanto, a presença das nipônicas acabou prejudicando os negócios dos desbravadores da Esquina do Veneno, que com a dificuldade para fazerem importações — em função da ditadura militar — precisaram se virar com o que tinham por aqui.

“Com o aumento abusivo dos impostos de importação, tornou-se inviável importar, que era o que a gente fazia. O que aconteceu? Nós tivemos que parar. Nossa última importação foi em 1974. A partir daí nós começamos a trabalhar com os produtos já existentes no mercado e mudou a filosofia da loja, que passou a ser relativamente ligada à Vespa, que era trazida pra Manaus e montada aqui mesmo, vinda da Itália. E também nos focamos na Lambreta, que já existia aqui, feita numa fábrica próxima ao pico do Jaraguá”, relatou Latorre.

“A única saída foi criarmos, nós mesmos, as peças. Para se ter uma idéia, até chassi nós fazíamos”, destacou Doemis dos Reis. “Desta forma, aprendi muita coisa e tudo que sei hoje devo ao Edgard. Ele foi um excelente mecânico”, completou.

Nos anos 1980 e 1990, as lojas de motos começaram a se proliferar pelo centro e demais localidades da cidade de São Paulo. Novos nomes fortes passaram a surgir, como a Moto Racer, dos irmãos João e José (Zé Loco) Benedetti, outros apaixonados por motocicletas que também, até os dias atuais, estão estabelecidos na famosa Esquina.

“Fomos uma espécie de divisores de águas, pois começamos a desenvolver um trabalho mais acelerado”, contou Zé Loco. “Eu, aliás, me considero o primeiro motoboy do Brasil, porque com a minha motinha fazia entrega de peças e demais encomendas pela cidade”.

Com o aumento excessivo da variedade de estabelecimentos, o espírito romântico que mantinha viva a Esquina do Veneno foi deixando de ser percebido, a ponto de morrer para muitos motociclistas. Hoje, somente os mais antigos guardam as lembranças dos tempos de Felipe Carmona, Edgard Soares e Luiz Latorre.

“A General Osório é, sem dúvida, o centro do Brasil em termos de motocicletas. Mas infelizmente não é mais a Esquina do Veneno dos tempos de meu pai, do Carmona e do Latorre”, lamentou Gislene Soares. “Os tempos são outros, a competitividade entre os lojistas se tornou muito mais acirrada e o próprio brilhantismo do motociclismo ficou diferente”, acrescentou.

Para Edgarzinho Soares, a Esquina do Veneno deixou muitas saudades. “Sem ela, talvez essa região nunca tivesse ficado tão conhecida. Isso, de certa forma, significa dizer que a Esquina permanece viva. Ela está presente no espaço físico, no esforço, empenho, dedicação e amor que os três velhinhos lá de ‘cima’ dedicaram ao centro de São Paulo, ao motociclismo brasileiro, à paixão de suas vidas”, concluiu.

Aos heróis da Esquina, Felipe Carmona, Edgard Soares e Luiz Latorre, esta reportagem é dedicada. Agradecimentos também aos entrevistados pela simpatia com que nos receberam e ao estradeiro Reinaldo Baptistucci pelo incentivo e colaboração com o desenvolvimento da matéria.


Fonte:
Equipe MOTO.com.br

domingo, 4 de maio de 2014

Se fosse em São Paulo não daria certo.


Uma civilização antiga, sem a ajuda de tecnologia moderna, conseguiu mover pedras de 2,5 toneladas para compor suas famosas pirâmides. Mas como? A pergunta aflige egiptólogos e engenheiros mecânicos há séculos. Mas agora, uma equipe da Universidade de Amsterdã acredita ter descoberto o segredo – e a solução estava na nossa cara o tempo todo.
Tudo se resume ao atrito. Os antigos egípcios transportavam sua carga rochosa através das areias do deserto: dezenas de escravos colocavam as pedras em grandes “trenós”, e as transportavam até o local de construção. Na verdade, os trenós eram basicamente grandes superfícies planas com bordas viradas para cima.
Quando você tenta puxar um trenó desses com uma carga de 2,5 toneladas, ele tende a afundar na areia à frente dele, criando uma elevação que precisa ser removida regularmente antes que possa se ​​tornar um obstáculo ainda maior.
A areia molhada, no entanto, não faz isso. Em areia com a quantidade certa de umidade, formam-se pontes capilares – microgotas de água que fazem os grãos de areia se ligarem uns aos outros -, o que dobra a rigidez relativa do material. Isso impede que a areia forme elevações na frente do trenó, e reduz pela metade a força necessária para arrastar o trenó. Pela metade.
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Ou seja, o truque é molhar a areia à frente do trenó. Como explica o comunicado à imprensa da Universidade de Amsterdã:
Os físicos colocaram, em uma bandeja de areia, uma versão de laboratório do trenó egípcio. Eles determinaram tanto a força de tração necessária e a rigidez da areia como uma função da quantidade de água na areia. Para determinar a rigidez, eles usaram um reômetro, que mostra quanta força é necessária para deformar um certo volume de areia.
Os experimentos revelaram que a força de tração exigida diminui proporcionalmente com a rigidez da areia… Um trenó desliza muito mais facilmente sobre a areia firme [e úmida] do deserto, simplesmente porque a areia não se acumula na frente do trenó, como faz no caso da areia seca.
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Estas experiências servem para confirmar o que os egípcios claramente já sabiam, e o que nós provavelmente já deveríamos saber. Imagens dentro do túmulo de Djehutihotep, descoberto na Era Vitoriana, descrevem uma cena de escravos transportando uma estátua colossal do governante do Império Médio; e nela, há um homem na frente do trenó derramando líquido na areia. Você pode vê-lo na imagem acima, à direita do pé da estátua.
Agora podemos finalmente declarar o fim desta caçada científica. O estudo foi publicado na Physical Review Letters. [Universidade de Amsterdã via Phys.org via Gizmodo en Español]
Imagens por wmedien/Shutterstock; Al-Ahram Weekly, 5-11 de agosto de 2004, edição 702; Universidade de Amsterdã


Bacana isso.

As pedras de 2,5 T não existiam na região, vinham de longe...

Mas a pergunta que não quer calar: eles molhavam toda a extensão de centenas de kilômetros de deserto para conseguir a areia molhada??? E como ???

Difícil de entender essa teoria...